Um tributo ao NAeL Minas Gerais A11

Construído no Reino Unido entre 1942 e 1945, onde foi batizado com o nome de HMS Vengeance, foi classificado na Classe Colossus. Tinha 212 metros de comprimento, capacidade para 1.300 homens e podia transportar até 14 aeronaves entre aviões e helicópteros. Em fins de 1956, o Brasil adquiriu a embarcação da Marinha Real Britânica, rebatizando-a de Minas Gerais e conduzindo-a a estaleiro nos Países Baixos a fim de sofrer modificações e modernizações. Foi incorporado a Armada Brasileira em 6 de dezembro de 1960.
O Navio-Aeródromo Ligeiro Minas Gerais (A-11), que serviu em três marinhas de guerra ao longo de sessenta anos e foi primeiro porta-aviões da Armada brasileira, encontrou seu fim ao lado de tantos outros bravos guerreiros do mar: nas impiedosas praias de Alang, na Índia, maior centro mundial de sucateamento de navios.

No Reino Unido: Sí­mbolo de liberdade

Foi construí­do entre 1942 e 1945, no Reino Unido, para ser usado contra os japoneses, no Pací­fico mas não chegou a entrar em combate: estava em Sidney, na Austrália, quando veio a paz.
Primeiro navio britânico a entrar em Hong Kong após a trégua, foi onde os japoneses assinaram sua rendição e serviu de base aliada para a reconstrução da cidade. Durante muitos meses, foi o sí­mbolo mais concreto e visá­vel que a guerra finalmente terminara e que a vida, em breve, voltaria ao normal.
Até hoje, o Vengeance, o nosso Minas, é lembrado com carinho pela população de Hong Kong.

Na Austrália: substituto temporário

Em 1952, foi emprestado á  Marinha Australiana por quatro anos. Os australianos tinham comprado um porta-aviões britânico cuja construção estava bastante atrasada: Podem usar esse enquanto o seu não fica pronto, disseram os ingleses.
Agora com o novo prefixo HMAS (Her Majesty’s Australian Ship), o Vengeance de novo quase entrou em combate, na Guerra da Coreia, chegou a ser preparado e tudo, mas mandaram outro navio.

No Brasil: orgulho da frota

Devolvido ao Reino Unido, o Vengeance foi decomissionado e acabou sendo vendido ao Brasil por nove milhões de dólares americanos. Era uma época de euforia no Brasil. Brasília estava sendo construindo como nova capital e, agora, comprávamos um porta-aviões, o primeiro de uma Marinha latino-americana. (Além disso, JK tinha enfrentado forte oposição das forças armadas e o Minas era uma excelente maneira de ganhá-las com mel, não com vinagre.)
No Brasil ele foi batizado Navio-Aeródromo Ligeiro (NAeL) Minas Gerais (A-11), ele nos deu quarenta anos de serviços. Foi o capitãnia (ou seja, o navio mais importante) da Armada Brasileira. Entrávamos assim no seleto grupo de paises com porta-aviões, grupo que hoje inclui somente 9:
A diplomacia e o comércio internacional, sem forças armadas por trás, não impõe respeito a ninguém. O Brasil não podia se dar ao luxo de não ter forças armadas capazes de projetar nosso poder em Angola ou na Argentina. As forças armadas são o único tipo de seguro que uma nação pode ter para proteger suas riquezas e seu povo..

Uma espada nunca desembainhada

Felizmente, nunca precisamos usar o bravo Minas Gerais. O mais perto que chegamos disso foi durante a Guerra da Lagosta, quando toda a Armada foi mobilizada para encarar os franceses, mas o Minas, recém-chegado, ainda não estava em condições de se locomover.
Uns 60 anos depois de construído, o Minas foi aposentado em 2001. Era o último dos porta-aviões ligeiros da Segunda Guerra Mundial ainda ativo e também o mais antigo porta-aviões em operação. E, mesmo tendo passado por três marinhas em um século convulsionado, na interessantíssima expressão inglesa, never fired a shot in anger, ou seja, “nunca disparou irritado”, querendo dizer que jamais participou de combates e todos os tiros que disparou foram em treinamentos ou simulações.

Um novo capitânia que conduz mas não é conduzido

O atual capitânia da Armada brasileira é o Navio-Aeródromo (Nae) São Paulo (A-12), é hoje o maior navio de guerra do hemisfério sul. Comprado em meio a muita polêmica, o São Paulo foi, durante quarenta anos, o porta-aviões Foch, da Marinha Francesa, onde participou de diversas ações de combate, no Iêmen, Djibuti, Líbano, Líbia e Iuguslávia. Que tenha vida mais pacífica no Brasil!

Seu funeral

Enquanto isso, ninguém quis o velho Minas, onde tantos homens suaram por tanto tempo. A associação de ex-tripulantes britãnicos tentou comprá-lo, para que fosse um museu flutuante, mas não conseguiram levantar o dinheiro.

Em 2002 o Minas Gerais foi colocado em leilão. Entre os doze concorrentes, a maioria pretendia transformá-lo em sucata, reciclando o aço de seu casco. Entre eles, destacou-se uma ONG britânica, que organizou uma campanha pela internet, sob o nome de Vengeance, designação da embarção à época da Segunda Guerra Mundial, com o projeto de restauração e requalificação da embarcação como museu histórico-temático flutuante sobre a história da aviação naval.

O navio histórico foi arrematado por 2 milhões de dólares norte-americanos por uma empresa de eventos e navegação de Xangai, na China, para onde foi transportado. Essa empresa, tendo desistido de utilizar a embarcação, vendeu-a por sua vez, tendo a mesma sido desmontada como sucata em Alang, na Índia.

Como um velho lobo do mar já sem controle sobre as próprias pernas por ter 60 anos de mar, o Minas Gerais saiu do Brasil rebocado, abandonando assim a bai­a que foi sua casa por quarenta anos, e foi em direção ao seu cemitério nas areias de Alang, na Índia.

A sinistra praia de Alang

Alang é um dos lugares mais desagradáveis do mundo. Quilômetros e quilômetros de praias repletas de destroços, diantes das quais navios velhos se amontoam, esperando sua vez de serem demolidos. Então, encalham naquelas areias lamacentas e são prontamente desmembrados por uma multidão de gente, que se atiram sobre os navios como gafanhotos numa lavoura.

E esse foi o triste fim do nosso Minas.

Para matar a saudade

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